Falando de frutas, verduras e legumes.



Minha primeira paciente do dia, 8h da manhã em uma segunda-feira, obesidade grau II. Já tínhamos nos falado ano passado, e conversamos algumas coisas básicas de primeira consulta: melhorar qualidade, aumentar fracionamento, diminuir quantidade. Não nos vimos mais até este dia pela manhã.

“Nossa que bom ver você, como você está?”

“Bem, depois da nossa conversa do ano passado a única coisa que consegui fazer foi ficar 03 meses sem tomar refrigerante.”

“Mesmo? E atualmente você voltou a tomar refrigerante??”

“Sim, nem isso eu consegui!”

“Mas nós tínhamos combinado de tirar o refrigerante?”, pergunto eu, não me lembrando deste detalhe. Que não é o costumeiro.

“Não, achei que não era saudável”, responde, triste e decepcionada com o insucesso da tentativa.

“Me fale um pouco sobre o que te incomoda na sua alimentação, o que você acha que está errado com ela.”

“Pra falar a verdade, não acho que eu coma tanto para estar com este peso. Não gosto de doces.”

A analiso com mais cuidado, cabelos amarrados de qualquer jeito, unhas por fazer, uma blusa que parecia não combinar com a saia e nenhuma das vestes combinava com a dona. Pareciam estar disputando um lugar, ela, a roupa e a cadeira. Ela estava desconfortável! Perguntei como foi o final de semana. Ela respondeu que estava chateada porque teve uma filha na adolescência, que não morava com ela, seu atual marido não se dava muito bem com os rompantes da adolescência de sua filha, a madrasta da menina também não a queria por perto, e nesta altura me vi obrigada a perguntar com quem a menina morava.

Ela me respondeu que a situação era bastante complicada, e que a filha estava morando com a tia de seu pai, e que lá moravam mais um primo, uma irmã, e outros agregados, como se fossem os exilados de qualquer lugar.

Neste momento, ela deixa transparecer toda sua decepção e impotência perante a situação! Questiona seu êxito no papel maternal, lamenta decisões passadas e não sabe quais serão as futuras, na verdade não sabe ao certo se poderia ser chamada de mãe.

Como vou falar de frutas e verduras… Como fazer a alimentação neste cenário ser uma das prioridades…continuo nossa conversa, procurando uma brecha, um sinal, pacientemente trilho o caminho com ela.

Um momento de silencio e refazimento.

Pergunto então o que ela gostaria de fazer.

Ela diz que vai esperar a filha crescer para ver se entende as coisas, ver se fica menos rebelde e amadureça! Vai explicar seu ponto de vista.

Neste momento, pensei que isso seria a mesma coisa que esperar os exames laboratoriais ficarem com resultados bons e ótimos para só então se iniciar a mudança de comportamento, principalmente o alimentar…

Este foi meu gancho.

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